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Sofá

22 . 12 . 2016

eu não gosto de montanha-russa. não gosto de aventura.

antes, eu achava que eu gostava. já fiz rapel e gosto de esportes sim, de alguns. coletivos, de contato, dentro d’água. eu só não gosto de me machucar. nem do medo de cair, de ser derrubada. de sentir dor. veja bem, eu suporto a dor, mas tem dor que bate errado. e essas de adrenalina demais, essas são das doídas. e obviamente por isso eu corro de montanha-russa, porque tem um grande risco do negócio ser grave depois de uma queda.

eu gosto da tranquilidade de deitar no sofá, de assistir netflix. de balançar na rede. [ou não, acho que prefiro ela parada, só o vento na cara]. de ir até o chão e subir, mas só se for ralando calcinha em festa. de mesa de bar, de tropeçar na minha embriaguez. de fronha, da luz amarela do abajur. do mar, da areia quente, da sombra do guarda-sol. de sair do avião, de turbina parando de girar. voar só é bom em sonho, em pensamento.

eu gosto de calma. de paz. da monotonia de uma vida simples.

uns dizem que isso é viver sem emoção.

eu só quero deitar no sofá.

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No fim do dia, a verdade 

12 . 03 . 2015

é que ninguém se importa.

Ninguém se importa com as suas mudanças de humor, pois deve ser apenas chatice. Ninguém se importa porque as pessoas estão muito ocupadas vivendo as suas próprias vidas, trabalhando, correndo, curtindo. E tá tudo bem assim. Só que não está. Mas todos vão continuar achando que se você não fala nada, então não é nada. E, sinceramente? Ninguém quer saber.

Não interessam seus dramas, seus desesperos. Seus freelas que você já teria dado conta mas estão se arrastando, porque assim você se mantém ocupada. Não interessa o seu medo de não acontecer nada, sua inércia diante desse grande monstro que insiste em incomodar. Não interessa sua agonia ao entrar em cada consultório, porque você sente um inexplicável pavor de ouvir um diagnóstico ruim. Seus dias são muito loucos. O computador trava e você chora, a internet cai e você chora, mas esses mundanos problemas tecnológicos são só desculpa pra você descarregar. Não é TPM. Não é nada. É só um negócio que bate de repente, como se amanhã tudo pudesse piorar, ou simplesmente como se não fosse acontecer nada. Mais um dia, e nada.

É a sua vida e só sua, você espera que as pessoas simpatizem com suas causas, seus momentos de cara amarrada, irritação e solidão, mas não é bem assim.

Até porque, se tu olhar pra fora, a verdade é que você também não se importa.

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Papa Metralha

23 . 02 . 2015

Chorando, faço um apelo: vamos cortar a merda das baboseiras das nossas vidas?

O mundo é lindo, é maravilhoso, vai dar tudo certo. Não precisamos brigar, não precisamos nos preocupar. Não devemos — e nem podemos — deixar tudo que existe de bom de lado e entrar nessa prisão pequena, apertada, cheia de tantas coisas feias bagunçando e ocupando espaço. Pega aquela vassoura ali no canto, vai, e junta essa porcaria de lixo. Sim, provavelmente estou gritando e chorando ao mesmo tempo. Porque existem as horas, querido, existem as horas em que não há mais paciência. Só que ela tá aí, embaixo dessa bagunça toda, em algum lugar, a gente perdeu. Precisamos achar. Precisamos nos achar. Reencontrar, na verdade. Essas coisas acontecem, às vezes com muita frequência, mas nada é maior que aquela casinha ali do lado, cheia de coisas boas e bonitas que foram achadas, juntadas, amontoadas com o passar dos anos. Vamos voltar pra lá, acabamos trancados por fora e agora nem eu, nem você, a gente não sabe o porquê.

Como aconteceu?

Já limpou aquele canto? Pega a pá, vamos jogar esse entulho fora.

Olha ali. Achei a paciência. Achei a chave da casa.

Tudo limpo agora.

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Ilustra daqui

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Procura-se

20 . 01 . 2015

Não tem mais vaga na geladeira. Nem no guarda-roupa. Nem em tantos metros quadrados, nem em uma suíte espaçosa. Não dá mais pra guardar dentro de uma casa tanta coisa e tanta vontade. Não tem espaço pra mais anos e anos de espera. Não adianta esperar. Não adianta só querer.

Não quer e nem pode jogar nada fora, só quer mudar de lugar. Talvez em menos espaço até caiba mais coisa, porque não é matemática nem nenhuma ciência exata que vai explicar essa vontade de mudar. É só um lance de ter. Ter o seu, viver o seu, mandar no seu. Não dever satisfações sobre o seu, sobre si. É pra não inflamar mais o que já anda inflamado, é pra não desgastar o que não deve ser desgastado.

E falta o espaço, a mobília, o dinheiro, a mudança, o caminhão de coragem. Falta concreto, sobra abstrato.

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Arte de Samantha Luck

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