Tudo sobre engole o choro

do que era uma carta

16 . 02 . 2018

eu passei um tempo me perguntando: por que ser tratada assim?

quando você sabe que merece mais. quando tudo está na sua cara, te dizendo que, por mais que você tente, não dá pra acreditar. quando parece um jogo perigoso. quando te fazem de fantoche. quando, aparentemente, você é só mais uma peça no quebra-cabeça. peça repetida. tanto faz como tanto fez te usar.

tentamos não fazer paralelos na vida, mas muitas vezes parece que seguimos um padrão. isso vale pro que é bom e pro que é ruim. e aí você entra numa paranoia: por que sempre comigo? por que não pode, ao menos uma vez, fugir do lugar comum?

e a gente tenta não entrar em situações de risco pra não se machucar, mas a vida empurra pras coisas. sei lá porque eu me coloquei em uma posição tão complicada e tão cedo depois de me ferrar. sei lá porque fiz isso comigo, imaginando que ia dar merda. imaginando que ia ser enganada, magoada, jogada fora de novo.

aparentemente o coração busca um refúgio em alguma coisa depois que ele leva uma porrada. eu busquei o meu. me vi exposta, descoberta, inteira. me vi em paz refugiada. me vi seguindo um coração ferido, sangrando, mas que vive.

só que parece que coração doente demora a curar. e frágil, coitado, vai se machucar de novo. porque nunca é fácil. você vai encontrar pedras no caminho, você vai encontrar gente que simplesmente não se importa. você vai se ver só, cuidando de todas as suas mazelas e cuidando para que elas não te endureçam mais, porque coração precisa curar aberto. fechado, dá metástase, mistura tudo, é difícil voltar ao normal.

parei de me perguntar: por que ser tratada assim?

é como diz a canção: é preciso estar atento e forte. observar aos sinais, sentir as dores, estar consciente de que, por você e pelos seus sentimentos, pelo seu coração em frangalhos, só você.

vai seguir, vai sobreviver.

só é uma pena mesmo.

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when you awake inside

02 . 12 . 2017

lança o barco contra o mar
venha o vento que houver
e se virar, nada

pega a mala que couber
vira a estrada sem saber
e se perder, calma

eu não sei nem por onde começar.

penso que posso dividir 2017 por sentimentos ou conclusões adquiridas sobre tudo pelo que passei. agora, ouvindo essa música do rubel, eu me vejo analisando esse turbilhão todo como um grande oceano, aquele mar que sempre aparece nos meus sonhos, que sempre me amedronta e me encanta.

para 2017, meu único desejo era que ele fosse leve. foi a última coisa que ele foi. pesado, intenso, cheio.

em 2017, eu naveguei por mares que me ensinaram que não se navega sem dor.

mas fui feliz aqui. fui feliz, mas nunca é o suficiente. porque sempre que você parar pra pensar, você vai querer um tantinho mais de felicidade. você vai querer mais tempo na cama sem fazer nada, vai querer repetir uma viagem, vai querer conhecer um lugar novo. isso é incrível e é possível sempre, é saudável. mas e quando seus quereres estão entrelaçados com outras pessoas? como você faz quando o seu querer permanece e o do outro muda?

esse ano me ensinou a ressignificar. se 2016 foi um ano difícil, cheio de obstáculos e dias malucos inconstantes, dúvidas, medos, 2017 foi o ano da perda. o ano de se perder e se encontrar dentro do não-querer. de fazer escolhas a partir de cenários não escolhidos. de se adaptar.

dói um pouquinho todo dia. histórias que foram e não são mais, expectativas (sempre elas) frustadas, saudade.

mas aí você acorda por dentro. e percebe que, de alguma forma, deixando os pedaços pelo meio do caminho, você continua navegando.

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das paredes brancas

14 . 10 . 2017

vez ou outra, eu acho uma dor diferente pra chorar.

hoje, a culpa foi das paredes brancas. um branco gelo, meio lá, meio cá. eu olho pro terceiro quarto da minha vida, inacabado, vazio. eu olho pra placa amarela, ressignificada.

todo dia, uma dor diferente pra chorar.

vez ou outra eu engulo, eu disfarço, eu bebo o choro. eu como, eu mastigo, estraçalho. ou eu nem sinto. mas todo dia, essa sensação de vazio das paredes brancas preenche alguma coisa. se é mágoa ou tristeza, eu nem sei mais.

de tudo, o que cansa é não conseguir escrever pra passar. porque sempre passa. essa ânsia de hoje, de colocar pra fora, é uma mistura de vazios, de perdas de um ano que vai terminando com paredes brancas, inacabadas, incertas, incompletas.

um ano que vai terminando mas que não terminou. e que, pelas minhas contas, vai fechar com uma perda a mais.

aí a gente tenta e escreve de novo. que passa.

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cinco

18 . 08 . 2017

há cinco meses, minha vida estava mudando loucamente. era dia de festa, de riso. era dia de sonho, de compartilhar, de trocar. há cinco meses, todos os planos de futuro pareciam o melhor dos mundos. o amor transforma coisas pequenas em grandes, supera barreiras, mexe com tudo na vida. acho que crer nisso não é ser romântico nem piegas. é simplesmente se entregar.

eu sempre usei meu espaço aqui pra falar da vida e das coisas que amo nela. de uns tempos pra cá, achei que era um problema não fazer mais isso, porque, na verdade, eu passo meu dia escrevendo, trabalhando, testando formas. faltava tempo e vontade. aos poucos, percebi que tudo bem. mesmo sem escrever sobre a vida, eu seguia vivendo.

hoje, já não me sinto à vontade pra escrever sobre tudo. talvez tenha virado algo sem sentido descarregar momentos aqui. só que também é aquela coisa: sinto necessidade de botar pra fora e encontrar mais gente “sentindo” como eu. e esse texto sem pé nem cabeça, que começou sobre o amor e a dor de hoje, termina do mesmo jeito que foi a semana: no caos. sem objetivo, sem contexto, só pra existir. só pra não engasgar.

por dentro, mesmo que ele se machuque e não se situe, o coração segue aberto. sempre.

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